Fúlvio Costa
Trabalho conjunto tem sido o caminho da comunidade de recicladores que luta por uma vida melhor. Conquistas, fracassos e sonhos fazem parte de seu cotidiano, mas como impulso para aspirações futuras.
Trabalho conjunto tem sido o caminho da comunidade de recicladores que luta por uma vida melhor. Conquistas, fracassos e sonhos fazem parte de seu cotidiano, mas como impulso para aspirações futuras.
Quem já visitou ou já ouviu falar nela, a conhece por Comunidade RECICLO (Reciclagem e Cidadania). Eu prefiro chamá-la de comunidade da esperança. Comunidade dos que lutam por voz, oportunidade e por um horizonte diferente daquele visto e experimentado por eles até hoje.
A RECICLO está localizada em Taguatinga Sul-DF para compor mais um cenário controverso e banal do Brasil. De um lado está o suntuoso prédio com traços greco-romano do colégio Leonardo Da Vinci. Do outro, o bairro de classe média, Águas Claras. Os pouco mais de cem catadores da comunidade são mais um retrato da disparidade social. Uma evidência entre tantas outras pouco remediada pelas autoridades.
A comunidade é formada por famílias que levavam a vida a pedir nas esquinas de Brasília. “A vida ia passando pedindo. Os calos nos meus pé ficaram de tanto eu ficar no chão esperando pelos outro. Eu não fazia outra coisa a num ser pidir”, afirmou Maria Francisca quando se aproximou da entrevista que eu estava realizando com Gervásio dos S. da Silva.
Gervásio, 47, diz que “tudo é bom enquanto dura”. Quando perguntado como chegou até ali, diz ter passado muito sofrimento. Explica o que passou nas longas viagens por alguns estados do Brasil: das dificuldades e de como deixou de ser andarilho. “Um dia eu vi que se eu continuasse naquela vida, não ia parar em lugar nenhum”. Vindo de Bom Conselho, Pernambuco, ele lembra do sofrimento que passou nas mãos do padrasto quando era criança, das quatro esposas que já fizeram parte de sua vida e dos 18 filhos.
Outro orgulho de Gervásio é a filha Jaqueline Sousa, 20, que é presidente da cooperativa e articuladora com o apoio dos parceiros da comunidade. Jaque, como é conhecida na comunidade, está na liderança há quatro anos, e, apesar das dificuldades, ela luta e gasta a maior parte de seu tempo na construção dos sonhos da comunidade. Já esgotado o período na liderança da RECICLO, ela está à procura de uma nova presidência para assumir seu lugar, mas sente dificuldades para encontrar alguém com determinação, coragem e espírito de liderança.
O peso do trabalho na comunidade RECICLO é paralelo ao pouco dinheiro que ganham: os catadores que mais se esforçam têm recebido nos últimos meses R$60, e os que trabalharam menos, receberam R$15. É algo que foge dos planos de qualquer ser humano. Para eles a saída tem sido buscar recursos por meio do trabalho artesanal: “temos feito tampas de jarra, cadeiras de garrafa pet e leques de jornal”, disse Jaqueline.
As dificuldades cercam de várias formas trabalhos ligados ao contato direto com o lixo. Sobre o preconceito, eles nem ligam mais. “As pessoas ainda nos olham torto, fecham a cara”, diz Gervásio, mas já percebem que as mudanças vêm ocorrendo gradativamente. “Tem gente que até nos dá bom dia, boa tarde. Perguntam assim: Como vai, seu Gervásio? Eu respondo que vai bem”, afirmou contente o mais velho dos catadores da RECICLO.
Apesar do longo caminho de lutas e possíveis fracassos que poderá ter pela frente, a comunidade sonha alto em pouco tempo, pois acredita que já conseguiu algo. A luta dos catadores tem olhar infinito e busca constante, tem objetivo e força de vontade. É isso que lhes assegura um caminho com brilho nos olhos e trabalhos em punho para a luta contra a pobreza que subdivide todo o Brasil.
Fotos: Rudney Victor
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