segunda-feira, 11 de junho de 2007

Juventude precoce

Chegamos na Reciclo em um dia de festa. Alunos da Universidade Paulista levaram música, brinquedos e atividades para os integrantes de uma comunidade que há quatro anos vive da reciclagem do lixo. A alegria das crianças contrastava com a paisagem. Barracos de lona, poeira e cavalos compõem o cenário de mais uma invasão no Distrito Federal. Mas a comunidade foi muito além disso. Os moradores aprenderam o que é uma cooperativa e, a partir de então, passaram a trabalhar juntos vendendo papel, plástico e metal para empresas de reciclagem.

Maternidade

Jovens meninas pulavam corda e dançavam. Não podíamos imaginar que algumas delas já eram mães. Assim como Patrícia, uma jovem de 17 anos que facilmente teria o filho confundido por seu irmão. A garota já vive com um companheiro que conheceu dentro da própria comunidade. "Como é o namoro aqui?", perguntamos. "É normal. A gente namora com as pessoas daqui mesmo", diz a mãe, ainda com jeito de menina. Como no caso de Patrícia, a maioria das relações se dá entre os próprios moradores. A Reciclo é como uma grande família, o vizinho é o irmão que se casou com a prima e assim por diante.

Nos inquietou a questão de como os jovens lidam com o fato de que moram em uma invasão, à margem da sociedade. Descobrimos que alguns adolescentes têm vergonha de serem vistos em cima de uma carroça. Felizmente, parece que todos estão na escola e, no período inverso, participam do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), uma iniciativa do governo que dá a possibilidade dos alunos praticarem esportes ou participarem de atividades que os mantém fora das ruas.


Cristiane Ribeiro da Silva, a "Tati", garante que os adolescentes não participam da "catação" do lixo. A jovem de 24 anos já tem dois filhos e, como as outras garotas da Reciclo, teve que amadurecer muito rápido. Tati acompanha o desempenho da filha na escola e sonha com um futuro diferente para suas crianças. Ela se separou há três anos e veio para a comunidade em busca de segurança. "Aqui tenho certeza de que vou conseguir alguma coisa". A filha, Kelten Siqueira, confessa seu maior desejo: "Não quero puxar carroça mamãe", diz a menina de cinco anos.
Sobre a sexualidade, Tati conta que já foram oferecidas palestras sobre o assunto na comunidade. "Eles explicaram o que são as Doenças Sexualmente Transmissíveis e os métodos anticoncepcionais. Mas é difícil, muitos casais não admitem o uso da camisinha porque acham que é uma forma de traição", revela. O quadro é preocupante. Praticamente todas as mulheres tiveram filhos muito cedo e, pelo número de crianças, percebemos que o planejamento familiar ainda não é uma prática. Tati diz que as mulheres mais experientes conversam com as jovens para tentar alertá-las. "A maioria não toma a pílula corretamente", confessa.

Mesmo com todas as dificuldades, vemos esperança nos olhos dos moradores. Eles esperam alcançar o tão sonhado lote para não ter que sofrer mais com as violentas derrubadas da polícia. É bom ver que se preocupam com o futuro do mundo. "Daqui a pouco não haverá lugar para as pessoas, só para o lixo", desabafa Jaqueline Sousa da Silva, a jovem que lidera a comunidade. É com essa consciência que a Reciclo segue em frente, contribuindo para o futuro sustentável do planeta e lutando por melhores condições de vida.



Grupo: Rayane, Daniely e Danuta

terça-feira, 5 de junho de 2007

Esperança

Uma cama singela. Uma porta de cobertor, um sofá feito de papelão. E a lona que cobre o chão.

Retrato de uma realidade tão próxima, mas ao mesmo tempo tão distante. Assim vivem os habitantes da Comunidade de catadores de materiais orgânicos Reciclo. Com muitas dificuldades, sobretudo no que diz respeito à habitação e estrutura, dividem seus espaços com pessoas que têm o mesmo sonho de ganhar um lugar próprio para construírem suas verdadeiras casas.


Apesar da situação ser precária, cada família tem seu canto, sua moradia, ao qual eles se referem como “barracos”. Alguns têm ajudas de programas federais, mas nem todos as recebem. Dessa forma, uns ajudam os outros e vivem da maneira que lhes é permitida. Um exemplo é com relação à alimentação. Às vezes, quando a fome “aperta” é necessário recorrer às pessoas de boa fé nas ruas ou esperar a boa vontade de outros.


Mas como já dito, habitação e estrutura podem ser considerados os maiores obstáculos enfrentados pelos moradores. Banheiro não “existe” na comunidade. E, consequentemente, a higienização do local é preocupante. Na hora de cada um fazer suas necessidades físicas é preciso se esconder no meio do mato. E como não existe um sistema de saneamento, as coisas são feitas em qualquer canto, de qualquer jeito, sem muita preocupação com limpeza. Assim, muitas doenças podem surgir a partir dessa falta de conscientização. Na hora do banho é sempre um sacrifício. É preciso de uma carroça para buscar a água e, novamente, nem todos dispõem desse benefício. Joselita Socorro, 40 anos, por exemplo, precisa pagar R$5,00 para que seu vizinho a traga um pouco de água, e nem sempre tem esse dinheiro.


Além disso, as condições dos dormitórios são precárias. As pessoas dormem em seus “barracos” feitos de lona e coberta com um cômodo só, o que os deixam à mercê de problemas que atrapalham suas noites de sono. Quando não é um fenômeno da natureza, como um vento muito forte ou a chuva, ou então alguma pessoa que ameaça derrubar as casas ou abusar de alguma moça, uma dificuldade que pode parecer banal surge para perturbar, principalmente, as crianças. Como a maioria das camas é, na verdade, colchões em cima de papelões colocados em tábuas de madeira, uma grande quantidade de poeira e mofo se acumula, o que faz com que os pequenos moradores dessas casas passem dias e dias com gripe e tosse, por exemplo.

Muitas barreiras,como vimos, são “colocadas” em frente a essas pessoas. No entanto, percebe-se que a esperança de um futuro com condições de moradia melhores brilha nos olhos de cada morador. A maioria não possui muitos bens matérias, mas todos acreditam na felicidade de um dia possuírem suas próprias casas, e não mais apenas “barracos”.

sábado, 2 de junho de 2007

Higiene acima de tudo


Viver na rua é uma boa escolha de vida? Ou ainda, viver na rua tem que anda sujo e deixa o seu local de moradia desarrumado? Essas são pergunta que nem sempre são 100% fáceis de serem respondidas. Em Taguatinga Sul, um grupo de catadores de lixo e matérias reciclados tem se preocupado muita com sua saúde de seus membros, e ainda com a higienização do local.


O grupo que chegou em Brasília há mais de 10 anos aos poucos foi conquistando seu espaço na região.Criando diversos barracos para a moradia, e acima de tudo uma boa educação aos seus filhos. No local de vivencia do grupo se encontram aos redores muita sujeira, devido ao vento e a falta de educação de alguns moradores. Mas ao entrar na moradia de cada uma encontram um “novo mundo”. Barracos limpo, tudo bem arrumando, alguns moveis bem colocado, e até uma espécie de guarda roupa com as roupas totalmente cheirosas e limpas.


Segundo Pedro Alves, 37 anos, morar na rua não é sinal de desinteresse com a higiene,e sim muito cuidado com o corpo e a saúde. “Eu preocupo muito com meu local onde eu vivo. Na minha casa tudo é bem limpo. Não é preciso deixa tudo sujo. Temos que limpar as coisas para nosso bem”, contou Pedro Alves que recentemente construiu um banheiro perto de seu barraco para todo que queiram tomar um banho digno, sem que todos vejam.


Assim como Pedro Alves, a jovem senhora Adriana Sousa, 51 anos, faz de tudo para que seus filhos tenham uma excelente higienização aos saírem de casa, principalmente quando sair para trabalhar e irem a escola. “Eu acordo certo passo perfume nas minhas filhas, e passo chapinha nos cabelos dela. Tudo isso para elas saírem arrumadinhas e limpa de casa”, lembrou aos risos Sousa.


A cooperativa
Formado por cerca de 47 famílias, os moradores decidiram criar a cooperativa reciclo, cujo objetivo é melhorar a qualidade de vida, resgatar a cidadania dessas pessoas e acima de tudo ar uma moradia aos mesmos.


A cooperativa tem objetivo de colher papéis e restos de entulho espalhados pela rua da cidade,e em seguida venderam para outros estados do país principalmente São Paulo. O grupo vem contando com o apoio do Governo do Distrito Federal, da Universidade Católica de Brasília e da Pastoral da Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, que vem desenvolvendo um importante trabalho na tentativa de obter soluções para os problemas dos moradores da comunidade. Os moradores recebem cestas básicas, assistência educacional para as crianças e doações.
Texto feito por : Ricardo Borges, Marianna Moreira e paulo Roberto Lima

sexta-feira, 1 de junho de 2007

CICLOS VITAIS

Transformando a vida com materiais descartáveis, a “família
Reciclo”constrói meios de sobreviver, mesmo sendo excluída social e economicamente



Famílias que vivem na miséria e não possuem uma fonte de renda, recorrem a atividades que lhes possibilitem um mínimo grau de sobrevivência. A grande maioria segue para o mercado informal, com a venda de doces nas ruas, como "flanelinhas" de carros em estacionamentos públicos, ou até na coleta de materiais recicláveis.
Esse é o caso do Sr. Gervásio, um pai de família que junto com seus filhos começou a recolher latas de alumínio e papelão, com o intuito de vender como material reciclável. Inicialmente montaram um barraco, ocupando a área logo atrás do Hipermercado Carrefour, no Pistão Sul de Taguatinga e dividiram as obrigações.
Enquanto uns saiam para a coleta, os outros trabalhavam separando o material encontrado. Outras pessoas conhecidas do Sr. Gervásio, que se encontravam na mesma situação precária advinda do desemprego e da falta de amparo assistencial, se uniram a ele e sua família.
Há sete anos eles sobrevivem da catação de garrafas Pet, papelão, alumínio, plástico e qualquer outro tipo de material que sirva para a venda de recicláveis. A família do Sr. Gervásio se compunha de 42 integrantes, hoje são 35 mulheres, 25 homens e 85 crianças vivendo em comunidade.

▫ Viver em família
A quantidade de crianças ultrapassa a de adultos. Elas são como seus pais, vivem de acordo com o que está ao seu alcance, a diversão fica por conta da imaginação.
Quando seus pais encontram brinquedos, abandonados, "Tudo se transforma em festa!", conta Doralice dos Santos, mãe de três filhos.
O ambiente é cercado de muita terra, mato e fios elétricos cruzando o chão. Mas as condições não impedem que as crianças exerçam o direito de brincar. Juntos eles montam brinquedos com materiais recicláveis e se organizam como irmãos, às vezes surgem brigas, mas sempre estão em conjunto, compartilhando as poucas alegrias.
Os clássicos pique-esconde e pique-pega estão entre os favoritos de Maria Aparecida e Messias, ambos com sete anos. Alice também contribui e inclui a brincadeira de escolinha entre as preferidas, “Às vezes eu escolho um ajudante porque dá muito trabalho ensinar”, admite a professora de mentira, com nove anos.
As esquecidas bolas de gude podem ser vistas por todo o lugar. Armazenadas em garrafa Pet com todo cuidado, a garotada coleciona várias bolinhas para a brincadeira, que está presente entre as crianças mais velhas.

▫ Projetos e Sonhos
Os planos futuros dessa criançada são almejados por elas mesmas. Giliardo, com quatorze anos fica tímido ao revelar o que sonha. Estudando a 4ª série, ele pretende ser jogador de futebol. Cristiano e Valmir, também com quatorze, já estão na 5ª série. Embalados com a vontade do amigo, eles revelam o desejo de ser soldado ou delegado.
Dona Arliana, mãe de oito filhos, recebe contribuição de cesta-básica da Caixa Econômica Federal e da Pastoral, como todos os que vivem na comunidade. Sua filha Edileia, a mais velha, tem 17 anos e mora no Ingá com a avó. Os outros sete vivem com ela, e estudam enquanto os pequenos ficam na creche de oito horas da manhã as seis da tarde.
Como todos estão matriculados, eles recebem auxílio do PET – (Programa de Educação Tutorial) – um programa do governo que subsidia crianças carentes com o uma bolsa de 60 reais mensal. Porém indignada Dona Arliana diz não ter recebido o benefício por alguns meses, e conta que ao serem chamados receberam apenas 40 reais por cada mês em atraso. As ajudas significam muito para essas famílias, cujas dificuldades não são apenas financeiras.
Em 2005, eles conseguiram montar sua própria cooperativa de catadores de material reciclável, a Reciclo. Contaram com o auxílio da Pastoral, que os instruiu sobre os aspectos de trabalho em conjunto, mostraram que cooperados devem atuar como donos e usuários. Muita coisa tomou rumo e facilitou um trabalho mais lucrativo.
Essa pequena comunidade faz parte da economia informal brasileira, na qual segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), se encontra um quinto da população. A principal motivação dessa classe de excluídos sociais é a esperança. O mesmo sentimento que a “família Reciclo” traz consigo. É com ele que a comunidade persegue sonhos, recicla idéias e alcança objetivos.

Jeito de se morar







Seis horas da manhã. Hora de levantar, acordar as crianças, preparar o café. A tarefa seguinte é levar a filhinha Ketlen à escola. Mas, como é caminho, aproveita e leva também os filhos dos outros vizinhos para estudar. Depois é hora de pegar a carroça, montar o cavalo e mãos à obra: catar papéis, materiais recicláveis, resíduos sólidos. Meio de sobrevivência e união daqueles que vivem numa comunidade que tem função de moradia e trabalho.
Na volta, a coleta é armazenada num galpão. Mas o trabalho não pára por aí. É hora de pegar as crianças na escola e preparar o almoço. A moradia é um barraco feito de lona e madeira. Se não tiver nada para cozinhar é só pedir a um vizinho que logo se prontifica a ajudar. Banho, só a noite. “As crianças brincam muito, se tomarem banho cedo, se sujam”, conta Cristiane Ribeiro da Silva, personagem desta história, moradora da comunidade Reciclo.
Na Reciclo, uma cooperativa situada em Taguatinga Sul, Cristiane é mais conhecida por Tati. Aos 24 anos de idade e com dois filhos, Kelten Siqueira (5) e Kelve Siqueira (3), ela não se desanima com a vida que leva. Pelo contrário: em seu rosto a alegria, o contentamento e a esperança de um dia melhor.
Antes de se mudar para a Reciclo, Tati morava com os filhos e o ex-marido, na Ceilândia, onde pagava aluguel. Trabalhadora autônoma vendia doces, balas, canetas. Época em que faltava comida na mesa e se sentia insegura, ela conta.
Há três anos morando na Reciclo, Tati afirma que não sente medo. “Todos aqui se conhecem na comunidade. Se entra alguém diferente, um avisa para o outro para ficar de olho. Eu tenho medo é da polícia que entra com a sirene ligada, medo dela (a polícia), levar algum jovem daqui”.
Os barracos das 42 famílias de moradores da comunidade Reciclo são alvos de constantes derrubadas. O motivo é que eles foram construídos em àrea pública. Tati reconhece que as derrubadas ficam na memória dos moradores, mas, "a fé em Deus os fazem superar", considera. Esperançosa, a catadora pensa no futuro dos filhos. Deseja vê-los "bem empregados e morando bem”. Ketlen, a filha mais velha que cursa a 1ª série do ensino fundamental em escola da rede pública, conversa com a mãe. Ela diz que quando crescer, não quer puxar carroça. "Ela quer ser bailarina, professora”, comenta Tati, que defende o estudo como forma de sua filha conseguir o que deseja

Feito por: Elaine, Gesiane , Luciana