Transformando a vida com materiais descartáveis, a “família
Reciclo”constrói meios de sobreviver, mesmo sendo excluída social e economicamente
Famílias que vivem na miséria e não possuem uma fonte de renda, recorrem a atividades que lhes possibilitem um mínimo grau de sobrevivência. A grande maioria segue para o mercado informal, com a venda de doces nas ruas, como "flanelinhas" de carros em estacionamentos públicos, ou até na coleta de materiais recicláveis.
Esse é o caso do Sr. Gervásio, um pai de família que junto com seus filhos começou a recolher latas de alumínio e papelão, com o intuito de vender como material reciclável. Inicialmente montaram um barraco, ocupando a área logo atrás do Hipermercado Carrefour, no Pistão Sul de Taguatinga e dividiram as obrigações.
Enquanto uns saiam para a coleta, os outros trabalhavam separando o material encontrado. Outras pessoas conhecidas do Sr. Gervásio, que se encontravam na mesma situação precária advinda do desemprego e da falta de amparo assistencial, se uniram a ele e sua família.
Há sete anos eles sobrevivem da catação de garrafas Pet, papelão, alumínio, plástico e qualquer outro tipo de material que sirva para a venda de recicláveis. A família do Sr. Gervásio se compunha de 42 integrantes, hoje são 35 mulheres, 25 homens e 85 crianças vivendo em comunidade.
▫ Viver em família
A quantidade de crianças ultrapassa a de adultos. Elas são como seus pais, vivem de acordo com o que está ao seu alcance, a diversão fica por conta da imaginação.
Quando seus pais encontram brinquedos, abandonados, "Tudo se transforma em festa!", conta Doralice dos Santos, mãe de três filhos.
O ambiente é cercado de muita terra, mato e fios elétricos cruzando o chão. Mas as condições não impedem que as crianças exerçam o direito de brincar. Juntos eles montam brinquedos com materiais recicláveis e se organizam como irmãos, às vezes surgem brigas, mas sempre estão em conjunto, compartilhando as poucas alegrias.
Os clássicos pique-esconde e pique-pega estão entre os favoritos de Maria Aparecida e Messias, ambos com sete anos. Alice também contribui e inclui a brincadeira de escolinha entre as preferidas, “Às vezes eu escolho um ajudante porque dá muito trabalho ensinar”, admite a professora de mentira, com nove anos.
As esquecidas bolas de gude podem ser vistas por todo o lugar. Armazenadas em garrafa Pet com todo cuidado, a garotada coleciona várias bolinhas para a brincadeira, que está presente entre as crianças mais velhas.
▫ Projetos e Sonhos
Os planos futuros dessa criançada são almejados por elas mesmas. Giliardo, com quatorze anos fica tímido ao revelar o que sonha. Estudando a 4ª série, ele pretende ser jogador de futebol. Cristiano e Valmir, também com quatorze, já estão na 5ª série. Embalados com a vontade do amigo, eles revelam o desejo de ser soldado ou delegado.
Dona Arliana, mãe de oito filhos, recebe contribuição de cesta-básica da Caixa Econômica Federal e da Pastoral, como todos os que vivem na comunidade. Sua filha Edileia, a mais velha, tem 17 anos e mora no Ingá com a avó. Os outros sete vivem com ela, e estudam enquanto os pequenos ficam na creche de oito horas da manhã as seis da tarde.
Como todos estão matriculados, eles recebem auxílio do PET – (Programa de Educação Tutorial) – um programa do governo que subsidia crianças carentes com o uma bolsa de 60 reais mensal. Porém indignada Dona Arliana diz não ter recebido o benefício por alguns meses, e conta que ao serem chamados receberam apenas 40 reais por cada mês em atraso. As ajudas significam muito para essas famílias, cujas dificuldades não são apenas financeiras.
Em 2005, eles conseguiram montar sua própria cooperativa de catadores de material reciclável, a Reciclo. Contaram com o auxílio da Pastoral, que os instruiu sobre os aspectos de trabalho em conjunto, mostraram que cooperados devem atuar como donos e usuários. Muita coisa tomou rumo e facilitou um trabalho mais lucrativo.
Essa pequena comunidade faz parte da economia informal brasileira, na qual segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), se encontra um quinto da população. A principal motivação dessa classe de excluídos sociais é a esperança. O mesmo sentimento que a “família Reciclo” traz consigo. É com ele que a comunidade persegue sonhos, recicla idéias e alcança objetivos.
sexta-feira, 1 de junho de 2007
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