Chegamos na Reciclo em um dia de festa. Alunos da Universidade Paulista levaram música, brinquedos e atividades para os integrantes de uma comunidade que há quatro anos vive da reciclagem do lixo. A alegria das crianças contrastava com a paisagem. Barracos de lona, poeira e cavalos compõem o cenário de mais uma invasão no Distrito Federal. Mas a comunidade foi muito além disso. Os moradores aprenderam o que é uma cooperativa e, a partir de então, passaram a trabalhar juntos vendendo papel, plástico e metal para empresas de reciclagem.
Jovens meninas pulavam corda e dançavam. Não podíamos imaginar que algumas delas já eram mães. Assim como Patrícia, uma jovem de 17 anos que facilmente teria o filho confundido por seu irmão. A garota já vive com um companheiro que conheceu dentro da própria comunidade. "Como é o namoro aqui?", perguntamos. "É normal. A gente namora com as pessoas daqui mesmo", diz a mãe, ainda com jeito de menina. Como no caso de Patrícia, a maioria das relações se dá entre os próprios moradores. A Reciclo é como uma grande família, o vizinho é o irmão que se casou com a prima e assim por diante.
Nos inquietou a questão de como os jovens lidam com o fato de que moram em uma invasão, à margem da sociedade. Descobrimos que alguns adolescentes têm vergonha de serem vistos em cima de uma carroça. Felizmente, parece que todos estão na escola e, no período inverso, participam do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), uma iniciativa do governo que dá a possibilidade dos alunos praticarem esportes ou participarem de atividades que os mantém fora das ruas. Cristiane Ribeiro da Silva, a "Tati", garante que os adolescentes não participam da "catação" do lixo. A jovem de 24 anos já tem dois filhos e, como as outras garotas da Reciclo, teve que amadurecer muito rápido. Tati acompanha o desempenho da filha na escola e sonha com um futuro diferente para suas crianças. Ela se separou há três anos e veio para a comunidade em busca de segurança. "Aqui tenho certeza de que vou conseguir alguma coisa". A filha, Kelten Siqueira, confessa seu maior desejo: "Não quero puxar carroça mamãe", diz a menina de cinco anos.
Sobre a sexualidade, Tati conta que já foram oferecidas palestras sobre o assunto na comunidade. "Eles explicaram o que são as Doenças Sexualmente Transmissíveis e os métodos anticoncepcionais. Mas é difícil, muitos casais não admitem o uso da camisinha porque acham que é uma forma de traição", revela. O quadro é preocupante. Praticamente todas as mulheres tiveram filhos muito cedo e, pelo número de crianças, percebemos que o planejamento familiar ainda não é uma prática. Tati diz que as mulheres mais experientes conversam com as jovens para tentar alertá-las. "A maioria não toma a pílula corretamente", confessa.
Mesmo com todas as dificuldades, vemos esperança nos olhos dos morado
res. Eles esperam alcançar o tão sonhado lote para não ter que sofrer mais com as violentas derrubadas da polícia. É bom ver que se preocupam com o futuro do mundo. "Daqui a pouco não haverá lugar para as pessoas, só para o lixo", desabafa Jaqueline Sousa da Silva, a jovem que lidera a comunidade. É com essa consciência que a Reciclo segue em frente, contribuindo para o futuro sustentável do planeta e lutando por melhores condições de vida.Grupo: Rayane, Daniely e Danuta

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