domingo, 18 de novembro de 2007

O amor aos outros filhos

Texto: Laura Maria
Olívia Florência
Fotos: Elisângela
A necessidade de trabalhar faz com que muitas mães da comunidade Reciclo deixem seus filhos em uma creche improvisada por algumas mulheres, mais especificamente adolescentes entre 12 e 17 anos. O lugar é chamado de Tenda pelos moradores e se localiza no centro do local onde a Comunidade vive. É um galpão pequeno, forrado de papelão e com muita arte criada pelas próprias crianças. Neste espaço não só funciona a creche diurna, mas também reuniões, lanches, a pastoral aos sábados, produção de pufs feitos com garrafas pets e rezas feitas à noite pelos integrantes do grupo.
A responsável pela administração das crianças é Tatiana, 17 anos e casada. Ela diz que é muito difícil para ela e as duas outras meninas que a auxiliam porque quando as mães deixam seus filhos na Tenda, os infantes começam a chorar de saudade de seus pais. Muitos ficam durante todo o horário de funcionamento do lugar, de oito horas da manhã ao meio-dia e de duas da tarde às seis da noite. Durante este tempo, os pequenos ficam brincando em cima do papelão, fazendo os trabalhos artísticos planejados e disponibilizados pelas três garotas. Tatiana diz que o maior problema é a comida, já que muitos pais não deixam nada para seus filhos se alimentarem e, devido à dificuldade da própria comunidade em receber doações, os lanches dessas crianças não têm todos os nutrientes necessários. Se há bebês para supervisionar, as garotas procuram por mães lactantes para que as ajudem.
Tatiana afirma que a tarefa que as crianças mais gostam é quando colocam o rádio para tocar e elas ficam pulando, dançando e cantando. São aproximadamente 85 crianças na Comunidade e mais de 20 freqüentam a creche. Os outros mais velhos dedicam seu tempo à escola. Os infantes já se apegaram às garotas que os supervisionam e muitas vezes rejeitam seus pais quando estes chegam da jornada de trabalho. As três garotas não ganham para cuidar dos pequenos, algumas vezes recebem uma ajuda das pessoas da Comunidade.
Uma pequena parcela de mães prefere não deixar seus filhos na creche por motivos de cuidado pessoal. É o caso de Joselita Socorro que tem quatro filhos e nunca deixou nenhum na Tenda. “Eu sei cuidar dos meus filhos melhor”, diz Joselita. Ela acha que as meninas não cuidam das crianças como deveriam, que o contato com crianças doentes da comunidade pode passar males a seus filhos e acredita que sob seus cuidados a criação dos garotos é mais certa. Como a Tenda não é trancada, Joselita diz temer que algo aconteça. Como tem de trabalhar para sustentá-los, ela deixa os mais velhos cuidando dos mais novos e acredita que isso é o certo.
É admirável o que meninas tão novas fazem por crianças que sequer possuem laços sanguíneos. Quando se visita a Tenda, é de fácil percepção o carinho que elas têm por cada um que supervisionam. E o sentimento é recíproco, pois muitas crianças se apegaram às garotas como a seus pais.





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