segunda-feira, 13 de agosto de 2007

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Sábado, quase meio-dia, desci do ônibus, tranqüila, observando o céu ainda azul do Distrito Federal. Distrito Federal, porque moro em uma satélite, então não faço parte de um dos melhores IDHs do país.
Prossegui a caminhada até minha moradia, dedicando alguma atenção ao local. Mas me apeguei tanto aos detalhes, que não me dei conta do aglomerado de gente ameaçando o ir e vir dos carros. As pessoas formaram um círculo, metade na pista sem se preocupar com o trânsito. Depois da estranheza, notei uma bicicleta largada no asfalto como se tivesse sido arremessada. Acidente, no mínimo.
Caminhei mais um pouco sem desviar o olhar, mas ninguém abandonava o posto e nem mexia um pouco a perna. Assim não dava para ver a pessoa acidentada. Aquela multidão mesclava curiosidade, proteção, piedade.
Reduzi as passadas e constatei a existência de tipos. Na pista oposta ao acidente, motoristas e carros deslizando lentamente tumultuam o trânsito na busca de respostas. Outro tipo não sabe se segue, não sabe se participa do espetáculo, e, entre paradas constantes para decidir seu caminho, resolve ficar e assistir ao espetáculo. Na verdade, a multidão não assiste, rouba o papel principal do acidentado, cercam e praticamente asfixiam o corpo dolorido.
A única característica geral, curiosidade. Todos perguntam: Quem? Onde? Quando? Por quê? Como? O quê? Não há como negar, contamos fatos usando o lead sem perceber.
Do aglomerado surge um novo personagem, o Flanelinha. O homem devidamente preparado para o papel (vestia um colete laranja fluorescente do tipo que os policiais rodoviários utilizam) se dirigiu para frente dos carros, encarou a pressa dos dias atuais, que torna qualquer ser humanos dentro de um veículo movido a qualquer combustível ─ petróleo ou pernas ─ um ser perigoso e insensível. E foi, o homem que todos os dias trabalha no estacionamento de um supermercado, próximo ao local do acidente, uns trinta e poucos anos de idade teve o seu momento de guarda de trânsito. Ele organizou tráfego sozinho e evitou a possibilidade de outro acidente até que os bombeiros chegassem.
Depois que o acidentado foi embora, o aglomerado se desfez e novos tipos se destacaram. Os saudosistas ficaram por mais um tempo dedicados à empreitada de rastrear os pingos de sangue, marcas no chão. Outra personagem, uma mulher de gestos frenéticos e repetitivos indica com os braços e as mãos a posição de cada elemento e grita uma reconstituição repleta de “aí ele foi, aí”.
Quanto ao acidente, confesso que não tenho mais informações... O fenômeno da comunicação me absorveu.

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